Quem disse que o mundo gira devagar?

O mundo gira rápido, né? E parece que nesses últimos anos ele tem girado com mais força, como se estivesse com pressa de chegar à algum lugar… Ou talvez ele esteja com muita vontade de esquecer alguma memória do passado.

Ainda lembro do comentário que fiz à uma amiga, quase quatro anos atrás, no começo de 2005. Foi na rampa do prédio onde hoje eu estudo, no dia do vestibular. Curioso que, antes mesmo de saber se tinha passado – antes mesmo de fazer a prova – eu já estava comentando com ela sobre como tinha gostado do clima no campus da universidade. E hoje estou aqui, à seis meses de me formar, ainda sem saber se escolhi um bom curso, e se fiz bem em desistir da biologia pra enfrentar as humanas.

Engraçado que, eu sempre comento que desses meus vinte e um anos, as memórias mais antigas – de quando eu era criança – me vêem como imagens de outra pessoa. Aquele garotinho brincando de pique na casa em obras do vizinho e ganhando uma cicatriz na mão esquerda não se parece mais comigo. Ou aquele outro que, quando foi testar se conseguia andar de bicicleta sem as duas mãos, levou um dos maiores tombos de sua vida. Teve aquele também que viu o melhor amigo ficar com a menina que ele gostava, e não resolveu não dizer nada pra ninguém. Tudo bem que essa memória aconteceu na primeira série do ensino fundamental, mas ela se repetiu algumas outras vezes durante o crescimento daquele garoto. Teve o que brigou com o colega numa excursão à caixa d’água da cidade, sem nem saber o porquê. Teve o que subia um morro imenso todas as manhãs, pra ir pra escola. Teve o que correu de um pivete, metade do caminho até em casa, novamente sem nem ter idéia do que estava acontecendo. Teve aquele que do nada, resolveu ir pra um churrasco dos amigos mais velhos, e acabou ganhando seu primeiro beijo. E o segundo, e o terceiro, e longos quartos e quintos, enquanto esperava o ônibus chegar na rodoviária. E depois teve que ouvir um pedido de explicações dos pais… Teve aquele que mudou pra capital, foi morar com o irmão mais velho, estudar no mesmo colégio que já conhecia de tantas histórias. E criou as suas próprias nesse mesmo prédio. Umas de matar aula na sala do grêmio, com as meninas do segundo ano. Outras de matar aula na praça da Liberdade. Algumas histórias de festas e bebedeiras no apartamento de alguém. Outras históras de corações partidos. Dele e delas. Mais dele do que delas, sejamos justos…

Mas o que me chama a atenção é que, nenhuma dessas memórias parecem serem minhas. Eu as assisto como se fossem uma série que colocaram no meu cérebro. Me identifico com o personagem principal, dou risadas, fico magoado, às vezes choro – quando o coração consegue não ser mais tão de pedra quanto tem sido. Mas no fim, nenhuma dessas memórias me toca como se eu fizesse parte delas. Isso me assusta às vezes. Parece que não sou aquele garotinho que aprendeu do modo difícil que derreter garrafa pet com isqueiro pode dar merda. Muito menos aquele que trocava o “C” pelo “T”, e teve que repreender a mãe, dizendo que o jeito certo de se falar é “suto”, e não “suto”. Não… Esse definitivamente não era eu.

Me dá medo porquê, se minhas memórias foram subplantadas na minha mente, como eu posso ter certeza do que eu sou hoje? Eu sempre disse que, “os caminhos que você mesmo traçou, hoje fazem parte do que você é”. Tá, talvez eu nunca tenha dito isso… Mas eu com certeza sempre acreditei que os seus passos são os responsáveis por te levarem aonde você se encontra. E se eu olho pros meus passos e não vejo certeza de que fui eu mesmo quem os deu, como posso ser confiante naquilo que sou hoje?

É, não se engane. O mundo anda girando mais rápido, sim senhor. E senhora. E senhorita. Talvez você só esteja muito ocupado para perceber, afinal não é todo o mundo que pode prestar atenção nos passos que está dando. E aí, depois vai ficar olhando pra trás e não reconhecendo suas próprias memórias.

Se eu pelo menos pudesse voltar atrás e curtir mais um pouquinho aquelas inúmeras quedas de bicicleta…

Um comentário sobre “Quem disse que o mundo gira devagar?

  1. Hoje vc é resultado de todas as inúmeras quedas… E de todas as vezes que vc, com coragem, engueu a cabeça e deu outro passo, e outro, e outro…
    O mundo gira rápido e com a mesma rapidez acontecem as transformações na nossa vida…
    Por isso é importante viver o hoje!

    Adorei o texto xuxu! Adoro ler textos com esse caráter todo pessoal…

    To com saudade de vc!

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